O agronegócio brasileiro volta a expor uma de suas maiores
contradições: é um dos setores mais sofisticados da economia, mas ainda depende
fortemente de crédito e de mecanismos de proteção para plantar, produzir e
vender. Em entrevista à Exame Agro, o presidente da Sociedade Rural Brasileira
afirmou que o setor precisaria de R$ 1,5 trilhão para viabilizar o plantio, em
meio ao aperto do custo financeiro e à pressão do risco climático.
Na prática, o financiamento funciona como a engrenagem que
antecede a safra. O produtor compra insumos, contrata mão de obra, prepara o
solo e só depois colhe a receita. Como esse intervalo é longo e caro, o crédito
rural segue essencial. O Plano Safra 2025/2026 foi lançado com R$ 516,2 bilhões
para a agricultura empresarial, valor expressivo, mas ainda distante da
necessidade total estimada para sustentar a produção em escala nacional.
A dependência, no entanto, não se resume ao dinheiro
público. Parte cada vez maior do financiamento vem do mercado privado, por meio
de tradings, bancos, CPRs e operações estruturadas. Isso mostra que o agro
amadureceu financeiramente, mas também revela uma vulnerabilidade: quando os
juros sobem, o custo da safra sobe junto. Em um setor de margens apertadas,
qualquer aumento no custo do capital afeta a decisão de plantar.
O seguro rural entra justamente para reduzir esse risco. Sem
proteção mínima contra seca, geada, excesso de chuva ou outras perdas
climáticas, o crédito fica mais caro e mais difícil de contratar. O problema é
que a subvenção pública ao seguro ainda é insuficiente para cobrir a demanda. O
resultado é um mercado concentrado, com cobertura limitada e forte exposição do
produtor aos extremos do clima, que têm se tornado mais frequentes.
O cenário atual mostra que o agronegócio não é dependente de
crédito e seguro por incapacidade produtiva, mas porque sua escala exige gestão
sofisticada de risco. O setor produz muito, exporta muito e sustenta boa parte
da balança comercial brasileira. Mas a sustentabilidade dessa força passa,
inevitavelmente, por financiamento previsível, seguro rural robusto e política
pública menos instável.
